Núcleo de Estudos de
Políticas Públicas
Professores da rede pública redescobrem a arte da pesquisa
Texto: Suzana C. Petropouleas (Mídia Ciência/FAPESP)
18 Jul 2018
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NEPP

No primeiro semestre de 2018, o Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) da UNICAMP ofereceu o curso de extensão intitulado “Pesquisa na escola: da pergunta inicial à documentação”.  Esse programa faz parte das atividades regulares do grupo de pesquisa em políticas públicas de educação infantil do NEPP em parceria com Faculdade de Educação (FE). Iniciado em fevereiro, o objetivo do curso foi capacitar educadores da rede pública da região metropolitana de Campinas a desenvolver o senso de pesquisa no ‘fazer educativo’ e estimular a formação contínua dos docentes. 


“Nesse curso os alunos vivenciam os caminhos práticos da pesquisa”, conta a coordenadora do projeto e pesquisadora do NEPP, Roberta Rocha Borges, doutora em psicologia da educação pela Universidade de Genebra e pesquisadora de políticas públicas de educação infantil. “A inovação do curso é ensinar aos professores a serem pesquisadores, trazendo a sensibilidade de observar, fazer perguntas, escutar, levantar hipóteses e checá-las na prática em contextos investigativos”, explica. “Quando se tornam professores munidos dessas estratégias, os alunos do curso levam esse conhecimento à escola, aprendem a escutar as curiosidades das crianças, suas teorias, a montar contextos que apoiem suas descobertas. Tornam-se educadores diferentes, que não dão a resposta pronta à criança e nem impõe seu conhecimento, mas escutam suas perguntas e interesses para apoiar a investigação do mundo físico e social por parte da criança”.


A proposta do curso segue a abordagem de sucesso de Regio Emilia, na qual os pesquisadores da área de educação infantil do Núcleo baseiam seus estudos. De acordo com essa metodologia criada na cidade italiana de mesmo nome após a Segunda Guerra Mundial, a pesquisa seria um modo privilegiado de ensino acerca da investigação do mundo ao redor, estimulando o potencial transformador da educação.  


Para a aluna Maria Crizeide Risso, o curso trouxe a oportunidade de redescobrir sua capacidade de experimentação e escuta.  Risso descreveu-se “encantada com a abordagem de Reggio Emilia trazida pelas docentes no início do curso”. Para a aluna, a descoberta da técnica de escuta ativa foi o valor mais importante adquirido no curso - e já colocado em prática na escola em que trabalha.  “Como vivenciar esse valor? A gestão democrática me pareceu o caminho mais adequado”, conta. 


“Na experiência da constituição do novo Conselho escolar, tentei instaurar essa escuta ativa. É o exercício de uma escuta atenta, que no momento da escuta não se preocupa em contra argumentar a opinião ou o posicionamento do outro, mas que de fato escute com o interesse em compreender como a fala está sendo construída e no que se pauta e que busca a contribuição, o acréscimo e não a sobreposição. Uma escuta que de fato possibilite uma vivência democrática no espaço escolar, tão alardeada mas tão pouco vivenciada”.



Para a aluna Cynthia Trepodoro a busca pelo curso originou-se do desejo de legitimar o potencial das crianças que se conectam com o espaço escolar no qual trabalha. “Fato é que a criança é vida, habita a escola cotidianamente e como ser com vida que é, naturalmente, investiga sua sobrevivência, desbrava o mundo nas relações que estabelece, compreendendo dia a dia o funcionamento e os processos evolutivos da estrutura do humano e do universo que a sustenta. Mas o que afasta a prática cotidiana desta criança forte, impetuosa, que pesquisa o mundo? Como tornar melhores e mais felizes seus dias na escola?”, perguntava-se.


 “O curso de extensão trouxe-me muitas inspirações”, relata Trepodoro. “Viver a inusitada experiência de uma nova prática, afetou-me a experienciação da  pesquisa não como um discurso, mas como ação no exercício educacional,  rompendo com os rituais  didáticos que aprisionam a liberdade, que é sempre experimental. Fez-me olhar para  a escola como  um lugar onde as narrativas da vida vão se tecendo e materializando-se na grandeza dos ambientes pedagógicos, nutrindo  a escuta do  adulto com caráter ético e sensível para que considere a criança na  genuinidade projetual.”


O curso contou com uma vivência em uma fazenda, na qual os participantes foram instigados a exercitar o ser pesquisador na prática. “Eles são imersos num contexto de investigação, em uma fazenda, para investigarem a natureza. Montamos contextos de aprendizagem para que eles deem continuidade, posteriormente, às pesquisas iniciadas na fazenda. Depois, eles aprendem como montar estes contextos investigativos sozinhos”. 


Trepodoro destaca a vivência realizada como um dos pontos altos do curso. “O contexto  da pesquisa na Natureza despertou-me para uma integralidade de percepção multissensorial”, narra, “fomentando a  investigação,  criatividade, dúvidas e  iniciativas de lançar-se à pesquisa”. 






No encerramento,  foi realizada uma Mostra na qual os alunos elaboraram contextos investigativos diferentes dos propostos nas escolas e materiais didáticos tradicionais, além de documentarem o que foi apreendido com o curso. 


O curso contou com professores participantes de Campinas e região, como São Paulo, Piracicaba, Mococa e Jundiaí, bem como membros das secretarias de Educação e prefeitura de algumas dessas cidades. A realização do curso contou com o apoio da Fundação Antonieta Cintra Gordinho, entidade sem fins lucrativos criada na década de 50 com o objetivo de fomentar a educação e desenvolvimento integrado de  crianças e adolescentes de baixa renda e que forneceu material e alimentação para o curso. Uma nova edição do curso está prevista para 2019.


Além disso, em 15 de agosto, a área de pesquisa em educação infantil do Núcleo organiza também o IX Fórum Internacional de Educação Infantil com o tema “Experimentalismo Democrático: A construção de um projeto educativo a partir da pedagogia da relação e da escuta”. O evento, cujos ingressos já estão esgotados, terá participação do Professor do Instituto de Educação da Universidade de Londres, Peter Moss, e será realizado no auditório da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP.  



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